A Microbiologia Oculta do Abscesso Apical Agudo
O abscesso apical agudo, a forma mais comum de abscesso dentário, é essencialmente uma infecção do canal radicular, mas sua etiologia é complexa. Compreender a natureza microscópica dessa condição é crucial, pois, em alguns casos, essa infecção, geralmente localizada, pode se espalhar e levar a complicações graves e até mortalidade.
Avanços recentes em métodos moleculares de microbiologia têm aprimorado substancialmente nosso conhecimento sobre a microbiota associada a esta condição.
1. A Natureza da Infecção: Uma Comunidade Anaeróbia Mista
A microbiota do abscesso apical é caracterizada por ser mista (polimicrobiana) e notavelmente dominada por bactérias anaeróbias.
- Comunidade Multiespécie: Estudos, tanto de cultura quanto moleculares, demonstram que a infecção é uma comunidade multiespécie. As análises de cultura relataram uma média de 2 a 8,5 espécies por espécime de pus, mas estudos moleculares, como o pirosequenciamento, sugerem que este número pode ser muito maior, com uma média de 12 a 18 espécies/filotipos por caso.
- Amostras: As amostras para análise microbiológica podem ser coletadas tanto do canal radicular dos dentes afetados quanto por aspiração do exsudato purulento (pus) da mucosa ou pele inchada.
- O Conceito de Comunidade-como-Patógeno: A busca por um único culpado microbiano para infecções endodônticas sintomáticas tem se mostrado infrutífera. O conceito predominante sugere que a comunidade é a unidade de patogenicidade. Abscessos apicais agudos são infecções polimicrobianas onde espécies que individualmente podem ter baixa virulência são capazes de causar doença quando em associação com outras, devido ao sinergismo patogênico.
2. Filos e Espécies Bacterianas Prevalentes
A grande maioria das espécies detectadas nos abscessos apicais pertence a sete diferentes filos bacterianos. Os filos Firmicutes e Bacteroidetes juntos contribuem com mais de 70% das espécies encontradas.
| Filo | Características e Gêneros Chave |
|---|---|
| Bacteroidetes | Inclui os gêneros Porphyromonas, Prevotella e Tannerella. Bactérias anaeróbias de pigmentação escura (DPA) foram intimamente associadas aos sintomas agudos. Espécies de Prevotella frequentemente encontradas incluem P. intermedia, P. nigrescens, P. baroniae e P. oris. Porphyromonas endodontalis é consistentemente encontrada. |
| Firmicutes | Inclui gêneros como Streptococcus, Dialister, Filifactor e Parvimonas. A espécie Parvimonas micra (anteriormente Peptostreptococcus micros), um pequeno coco anaeróbio, é isolada ou detectada em um grande número de amostras. Os estreptococos predominantes pertencem ao grupo Streptococcus anginosus (S. anginosus, S. constellatus e S. intermedius). |
| Fusobacteria | Inclui os gêneros Fusobacterium e Leptotrichia. O Fusobacterium nucleatum é uma das espécies Gram-negativas mais frequentemente detectadas, com prevalências que podem chegar a 86% das amostras. |
| Spirochaetes | Representantes do gênero Treponema, como T. denticola, T. medium, T. socranskii e T. maltophilum, têm sido frequentemente detectados por métodos moleculares. |
| Outros | Incluem Actinobacteria (Actinomyces e Propionibacterium), Synergistetes e Proteobacteria (Campylobacter e Eikenella). |
3. Filotipos Não Cultivados e Métodos de Diagnóstico
Historicamente, os métodos de cultura tradicionalmente usados para investigar a microbiota tinham limitações significativas, especialmente porque 40% a 70% das espécies bacterianas orais ainda não foram cultivadas ou fenotipicamente caracterizadas.
- Diversidade Oculta: O desenvolvimento de ferramentas baseadas em biologia molecular (como PCR, hibridização e pirosequenciamento) contornou essas limitações e revelou uma diversidade microbiana mais realista e complexa.
- Filotipos Não Cultivados (As-yet-uncultivated phylotypes): Investigações moleculares demonstraram a ocorrência comum de filotipos bacterianos ainda não cultivados. Em termos de riqueza, esses filotipos compreendem aproximadamente 24% a 46% dos táxons encontrados em abscessos. Eles são suspeitos de serem patógenos com base em dados de associação.
4. Fatores que Elevam a Virulência
Além da simples presença de espécies patogênicas, a gravidade da infecção aguda é influenciada por uma variedade de fatores relacionados à comunidade bacteriana:
- Interações Bacterianas: Combinações bacterianas contribuem para o desenvolvimento de comunidades mais virulentas devido ao sinergismo. As associações entre as espécies podem afetar e modular a virulência, resultando em comunidades mais ou menos agressivas.
- Carga Bacteriana: O número total de bactérias pode ser um fator decisivo, representando uma carga biológica pesada para o hospedeiro. A carga bacteriana total tem sido relatada na faixa de 10⁴ a 10⁹ células por caso de abscesso.
- Expressão de Fatores de Virulência Regulada pelo Ambiente: O ambiente (alterado pela comunidade microbiana, pelo tratamento ou por fatores do hospedeiro) pode induzir o "ligar ou desligar" de genes de virulência, aumentando a patogenicidade coletiva e levando ao surgimento de sintomas.
Assim, o abscesso apical agudo não é causado por um único agente, mas sim pelo resultado da complexa interação de uma comunidade bacteriana diversa, predominantemente anaeróbia, influenciada por sua carga, sinergismo e a resposta do hospedeiro.
Siqueira JF, Rôças IN. Microbiology and Treatment of Acute Apical Abscesses. Clin Microbiol Rev. 2013 Apr;26(2):255–73.